Tirinha sobre Consentimento – traduzida do Oh Joy Sex Toy

Nesse Carnaval, nós do Calcinhas achamos muito importante reforçar que o CONSENTIMENTO é necessário em qualquer interação sexual entre duas ou mais pessoas. Durante o Carnaval, o número de estupros aumenta e não há campanha o suficiente para ensinar o que a tirinha expõe de modo tão didático.
É em meio a propagandas como a da Skol que deixamos aqui a nossa mensagem que, embora óbvia, ainda é muito ignorada:

Link da original http://www.ohjoysextoy.com/consent/

projeto tirinha

Resposta à falácia machista do risco da guerra

“Enquanto os homens arriscam suas vidas na guerra, as mulheres ficam em casa. Não seria isso um privilégio das mulheres?”

– Mascu

TW: VIOLÊNCIA SEXUAL

A História nos mostra que esse tipo de pensamento é, no mínimo, simplista. Desde a Antiguidade, há registro do estupro de guerra, escravização da população feminina e violência contra os civis (em grande parte mulheres e crianças) de modo geral, em tempos de atritos entre impérios, países, cidades, etc. Na Roma e na Grécia antigas, sociedades extremamente machistas, a escravização das esposas de guerreiros que pereciam em guerra era algo corriqueiro. Era uma maneira de fazer a manutenção dos exércitos menos custosa, visto que mulheres eram consideradas uma recompensa, um mero objeto. Um episódio famoso é o do “Rapto das Sabinas”, retratado em múltiplas ocasiões na arte ocidental de modo romantizado – seja como um ato de “bravura” dos abusadores, ou como “quando o amor prevaleceu sobre a guerra”, como na pintura de Jacques-Louis David (A Intervenção das Sabinas – 1799).

Obra de Jacques-Louis David onde a violência contra a mulher é romantizada e colocada como "voluntária" e como um ato de "bondade feminin
Obra de Jacques-Louis David onde a violência contra a mulher é romantizada e colocada como “voluntária” e como um ato de “bondade feminina”

A tática do estupro como instrumento de guerra serve para desmoralizar o adversário, humilhar os civis, fazer uma limpeza étnica (como no caso dos estupros em massa na Guerra da Bósnia) ou para suprir as “necessidades” dos soldados – seja com a escravidão sexual institucionalizada, com o espólio ou a liberação desse tipo de ato por parte de oficiais do exército. Para aqueles que acham que esse tipo de prática é distante e obsoleta, há exemplos de atrocidades cometidas em períodos próximos ao nosso. Tendo em vista que vivemos em uma cultura do estupro – em que a grande maioria das vítimas são mulheres e a maioria dos agressores, homens – não é difícil de se imaginar que as vítimas dessa estratégia são as mulheres e meninas.

Na Segunda Guerra Sino-Japonesa (1931 – 1945), ocorreu aquele que ficou conhecido como o Massacre de Nanking. O artigo de Thiago Ribeiro para o blog Causas Perdidas apresenta de modo conciso como eram as violências contra as civis chinesas e o motivo de tanta brutalidade:

Já as violências sexuais ocorriam principalmente na forma de estupros. Mulheres de todas as idades poderiam ser vítimas, possuíssem 8 ou 80 anos. O local de ocorrência não parecia importar. Condição física, idem. Meninas, senhoras, sacerdotisas (violar votos de celibato era um dos maiores prazeres), idosas, grávidas (recente, avançada, em pós-parto ou até em trabalho de parto). […]

Essa foto (AVISO: CONTEÚDO GRÁFICO) exemplifica uma prática que foi usual: a inserção de algum objeto, como taco de golfe ou garrafa de cerveja, nas partes íntimas da vítima de estupro, de forma a causar maiores danos internos. […]

Outra prática também corriqueira era a ordem para incesto. Obrigava-se que as mulheres tivessem relações com seus pais, irmãos e filhos. Caso estes se recusassem, poderiam ser mortos. A morte era algo muito relacionado a tais atos de violência sexual. Não apenas as mulheres costumavam ser mortas após os estupros – algo que se fazia como forma de impedir que delatassem o ocorrido -, mas também aqueles que porventura estivessem com elas (filhos pequenos, irmãos, amigos, primos, pais, etc.) e que tentassem impedir os estupros ou importunassem os soldados japoneses […]

Não é necessário muito esforço retórico para dizer que os estupros em Nanking podem ter sido uma “arma de guerra” contra os chineses. […]

Para os soldados que estão em um território distante de suas casas, o ponto fundamental dos estupros é o sexo. Sexo pelo sexo. Mas isso não significa que outros elementos não interferem nos atos. Na abordagem de Silva, os estupros de Nanking foram motivados pelas ideias de superioridade japonesa, fomentada pelas recentes vitórias militares, superioridade masculina – constituinte da cultura japonesa – e um sentimento de corporativismo militar por aqueles que se encontravam atuando fora de seu país, o que impediu denúncias de um soldado contra outro. Assim, nos estupros há uma afirmação de uma identidade de homem-conquistador sobre uma identidade de mulher-conquistada.”

Também no Japão, na Segunda Guerra Mundial, foram implementados os “Postos de Conforto”. Conforto para quem? É um termo no mínimo hipócrita, que esconde a realidade funesta desses estabelecimentos: eram prostíbulos com mulheres escravizadas criados com a intenção de dar prazer ao exército japonês, para que as novas áreas invadidas pelo Japão não sofressem com o estupro praticado pelos soldados e não se criasse tanto atrito. Mulheres filipinas, indonésias, tailandesas, vietnamitas e de outras colônias do Japão foram sistematicamente retiradas de seus lares e destinadas ao “alívio” de homens que, em tempos de conflito e desespero, abusavam dessas mulheres. Não há consenso sobre o número de mulheres escravizadas, mas estima-se um número entre 50 e 200 mil.

Até mesmo o Exército Vermelho da URSS praticou estupros em massa nas batalhas na Alemanha, quando as tropas nazistas já estavam muito enfraquecidas e não havia mais chance de vitória. Estima-se que mais de 2 milhões de mulheres tenham sido vítimas em cerca de dois meses. O fato de tal brutalidade ter sido cometida por um exército revolucionário nos mostra como o feminismo não é apenas uma causa secundária, mas sim um movimento que deveria ser considerado no mínimo vital para uma revolução que pretenda, de fato, romper com a ordem social vigente.

E não são só os “orientais” que cometem tais crimes de guerra. Países do ocidente também são responsáveis por inúmeras violações no decorrer da história. Seja na Guerra dos Trinta Anos (que terminou em 1648), quando cerca de metade da população feminina alemã foi violada, os cerca de 14 mil estupros cometidos por soldados americanos em campanhas na Segunda Guerra Mundial, os estupros em massa na Batalha do Monte Cassino (1944) cometidos pelo exército francês, os estupros cometidos por agentes pacificadores (!) da ONU, ou até mesmo os recentes casos do exército dos EUA no Iraque. A afirmação feita por um dos homens que participou de um estupro grupal seguido do assassinato de uma garota iraquiana (e de toda a sua família) de catorze anos (2006) foi categórica, e muito útil para entender o raciocínio que leva a esses incidentes:

“Eu não penso nos iraquianos como seres humanos.”

Abeer Qassim Hamza, a menina iraquiana que foi vítima de múltiplos soldados americanos aos 14 anos, com 6 na foto.
Abeer Qassim Hamza, a menina iraquiana que foi vítima de múltiplos soldados americanos aos 14 anos, com 6 na foto.

No jogo pelo poder, o corpo da mulher também está incluso como objeto de disputa. O adversário é desumanizado, não são consideradas suas motivações, interesse em não sofrer: aquele que vai ao combate vê apenas um inimigo a ser aniquilado, um grupo que o desagrada. Não são somente psicopatas monstruosos que cometem esses atos, mas sim pessoas comuns que se aproveitam de tempos de desespero – quando não há espaço para a ética, quando o ódio a uma etnia e a misoginia estão “liberados” e não há fiscalização dos acontecimentos.

E se, ainda assim não está claro que guerras são danosas tanto a homens como a mulheres, gostaria de lembrar que o número de mortes de civis (em maioria, mulheres e crianças) costuma ser numericamente mais alto se comparado ao número de baixas militares. Claro que há ocasiões em que o número de soldados mortos é maior, mas, ainda assim, é um número grande o suficiente para rebater o argumento inicial – de que as mulheres ficam em casa, numa vida supostamente calma, durante as guerras. Deixo aqui as baixas das duas grandes guerras mundiais como exemplo:

GUERRA BAIXAS CIVIS BAIXAS MILITARES
Primeira Guerra Mundial 7 milhões 10 milhões
Segunda Guerra Mundial 41 milhões 25 mihões

Geralmente, tal falácia machista é utilizada para deslegitimar a luta feminista, e vem acompanhada do “argumento” do alistamento militar obrigatório. Não é como se nossa luta para diminuir e erradicar a violência de gênero anulasse a possibilidade de homens se organizarem para lutar contra uma falha de um sistema criado por outros homens no passado. Reclamam que as feministas não lutam por isso, mas, ora, um protesto por uma causa masculina precisa ter no mínimo representatividade do gênero! Não vejo homens se mobilizando pela causa – e, pessoalmente, apoiaria a reivindicação para o fim da obrigatoriedade. E dizer que somos “contra” isso para continuarmos com nossos privilégios é desonesto, pois grande maioria das mulheres feministas apoia o fim do serviço militar obrigatório porque são contra as divisões de tarefas pelo gênero.

Também há aqueles que são a favor das mulheres lutarem pelo alistamento obrigatório para todos os gêneros – uma proposta, no mínimo, absurda. Uma instituição dominada por homens – aqueles que possuem armas, poder e recebem treinamento para terem força física e resistência – não poderia ser menos atraente para mulheres, cuja socialização não costuma ser compatível com a mentalidade militar. Além disso, o número de casos de violência sexual contra homens já é alto dentro das próprias forças armadas, e tende a aumentar muito contra as mulheres militares, que além de numericamente muito inferiores, são muito mais propensas a serem vítimas de estupro por conta do machismo estrutural em nossa sociedade. O documentário The Invisible War, dirigido por Kirby Dick, aborda a questão à partir dos casos ocorridos nos EUA – e na grande maioria destes, denunciar os abusos se tornava uma tarefa difícil por conta do silêncio e conivência dos internos e da estrutura altamente hierarquizada da marinha americana.

Capa do documentário The Invisible War (A Guerra Invisível)
Capa do documentário The Invisible War (A Guerra Invisível)

No fim, é sensato dizer que a realidade da guerra – fome, mortes em combates, massacres, ataques a civis, estupros, instabilidade política, etc. – atinge todos os gêneros, embora de modos distintos, e que essa distinção é causada pelos diferentes papéis de gênero que existem em nossa sociedade.

Por: Amanda

Rituais e cerimônias nas relações afetivas

Comunidade Trobriand - Nova Guiné
Comunidade Trobriand – Nova Guiné

Saiu recentemente uma pesquisa interessante de integrantes do Instituto de Pesquisa Mendacimano, sobre os rituais e cerimônias relativos às relações afetivas da tribo Escógita. O grupo de antropólogos estudou e conviveu com a tribo durante 18 anos e relatou alguns comportamentos relacionados ao modo como a sociedade escogitana organiza sua vida afetiva, apresentando vários comportamentos curiosos.

O relato começa com a descrição de como a sociedade organiza sua ideia de gênero. Antes mesmo do bebê nascer, quando a mãe está grávida, ela e seu companheiro visitam um templo no qual um tipo de vidente toca a mãe e tenta prever a genitália da criança. Dependendo dessa previsão, o casal reúne acessórios diferentes para oferecer como tributo à criança ao nascer, uma vez que nessa tribo há uma crença de que a genitália da criança determina seu gênero, ou seja, se ela será um homem ou uma mulher, classificando as duas figuras como absolutamente dicotômicas e, assim, associando diferentes acessórios e tributos a cada uma delas.

Como os homens na tribo são treinados para serem guerreiros, desde pequenos ganham acessórios relacionados à guerra, enquanto as mulheres são doutrinadas para serem boas mães, de forma que mesmo quando meninas recebem acessórios ligados à ideia de maternidade e responsabilidades a partir da vida de outro. A construção do masculino, sempre relacionada aos testículos, é a partir de uma figura de homem forte e esperto, ligado à razão. Enquanto a figura do feminino (também diretamente relacionada aos ovários e útero) é construída a partir do oposto daquilo que é considerado masculino, fazendo da figura da mulher, então, frágil, delicada e emotiva.

Quando atingida a maturidade, considerada pela tribo algo perto dos 16 anos, os jovens passam a frequentar espaços reservados para a técnicas de acasalamento. Esses jovens se reúnem de forma que as mulheres ficam nos espaços centrais desses locais chamados admissuram, enquanto os homens andam em volta delas. Os homens avaliam as mulheres, que, antes de comparecem a esses espaços colocam amuletos para trazer sorte, como dispositivos auriculares e anelares, além de pinturas corporais características. Dentro do admissuram os integrantes da tribo efetuam algo semelhante a uma dança do acasalamento, de modo que “fêmeas e machos” dancem para chamar a atenção uns dos outros. Quando uma mulher chama atenção de um homem, ele se aproxima e tenta colocar em prática alguns rituais, primeiro tocando a mulher com as mãos e depois com a boca. A mulher pode demonstrar aceitar ou não essa aproximação masculina através de sua simbologia corporal, porém, muitas vezes os homens se aproximam mesmo que a mulher faça sinais negativos, rejeitando-o.

Os Escogita se organizam a partir de uma lógica monogâmica, ou seja, apenas aceitando o relacionamento entre duas pessoas, quando mais duas, a própria tribo rejeita a união afetiva, de modo de não seja tratado como natural. Os casais tem que ser compostos por um representante de cada grupo antagônico, ou seja, um representante da figura masculina e um da feminina. Os casais em que há duas figuras masculinas ou duas femininas são também rejeitados pela comunidade e muitas vezes sacrificados, de modo que seus corpos sejam oferecidos como tributo ao demônio Copulabis.

Quando um casal de dois membros desses grupos antagônicos é composto, esses membros participam de uma cerimônia a fim de jurar sua lealdade um ao outro diante da eternidade. Essa cerimônia é importante dentro da comunidade para que os bens materiais acumulados pelo casal sejam repassados aos seus únicos filhos, de modo que uma justificativa material anteceda historicamente uma justificativa afetiva para a tal cerimônia, chamada de brak.

 

Bom, não sei se perceberam ou não ao longo do texto, mas eu inventei o Instituto de Pesquisa Mendacimano (mendacium: mentira em latim), assim como a tribo Escógita (excogita: criar, inventar em latim), que não é nada além de uma outra forma de demonstrar as impressões sobre nossa própria sociedade. Sociedade essa que encara a genitália como determinante do gênero e da sexualidade, oprimindo, assim, respectivamente trans e homossexuais.

Além disso, mesmo antes do bebê nascer lhe atribuem um gênero e compram roupas e brinquedos relacionados a eles, que são construídos de maneira dicotômica e estereotipada. Aos meninos são dados carrinhos de brinquedos (motoristas), assim como arminhas (exército) e bolas (esporte). Enquanto as meninas são doutrinadas a serem boas mães a partir de bonecas (réplicas de bebês humanos pouco mais novos que elas) e boas donas de casa, com suas casinhas e pias de brinquedo. Ninguém pergunta se a criança quer brincar de carrinho ou boneca, há apenas rosa e azul e um universo de estereótipos que orbitam em torno de cada uma dessas construções sociais.

O admissuram (do latim: acasalamento) seriam as baladas, um espaço no qual pode haver diversas formas de opressão que são, muitas vezes, naturalizadas e negligenciadas. E, por fim, o brak (em sérvio: casamento), é o próprio casamento, que na nossa sociedade só é admitido legalmente para uniões monogâmicas, e apenas recentemente o casamento civil entre homossexuais foi admitido, sendo que como instituição religiosa continua restrito aos heterossexuais.

Muitas coisas nos são ensinadas como naturais e intrínsecas ou instintivas para nossa espécie, mas seu caráter social é, muitas vezes, negligenciado. O machismo, o racismo, a heterocisnormatividade e a monogamia são parte de construções sociais que oprimem diversos setores da sociedade, subordinando-os a um padrão daquilo que é construído como masculino, branco, cisgênero e heterossexual.

Tanto são construções sociais, que em outras sociedades há outras diversas formas de organização dos laços afetivos que não essa patriarcal, como os ilhéus de Trobriand (foto) do nordeste de Nova Guiné estudados pelo antropólogo Malinowski, em que as relações familiares são matrilineares, de forma que há uma negação da paternidade fisiológica, uma vez que se acredita que a gravidez é fruto de uma interação divina, então as famílias se organizam a partir da mãe, e o pai tem apenas uma função social de apoio, sem que exista uma subordinação do feminino ao masculino dentro da família ou na sociedade.

A  tribo Tchambuli (agora Chambri) que vive na Papua-Nova Guiné, estudada pela antropóloga Margaret Mead, também é um dos tantos exemplos de sociedades não patriarcais em que as mulheres dominavam. Mead também desmistificou a ideia de que os homens são naturalmente mais agressivos e as mulheres naturalmente mais calmas estudando as comunidades de Arapesh e Mundugumor, além da Tchambuli, e conclui que entre os Arapesh todos eram pacíficos, sem haver essa relação entre agressividade e masculino ou pacifismo e feminino; entre os Mundugumor, pelo contrário, todos apresentavam um comportamento bélico, tanto homens quanto mulheres; e na tribo Tchambuli, os homens demoravam mais tempo se arrumando e enfeitando, enquanto as mulheres eram mais práticas, ideia contrária da passada hoje na nossa sociedade ocidental.

Portanto, todas essas relações fazem parte de uma construção social, de um conjunto de costumes, tradições e ideologias que compõem nossa sociedade ocidental, e, sendo construções sociais, é possível desconstruí-las. Ninguém é plenamente desconstruído de seus preconceitos e estereótipos e ninguém está isento de causar opressões, uma vez que é muito provável que sejamos privilegiados de alguma forma dentro da sociedade, seja por um recorte racial, de gênero, orientação sexual ou condições materiais. Mas essa deve ser uma luta constante, para sempre estarmos desconstruindo o preconceito dentro e fora de nós.

– Por Mari Haug

Ditadura dos Pelos

10836341_1580938908794098_1894214476_nMe olho no espelho e, por muito tempo, observo cada parte do meu corpo. Às vezes preferiria não ter tomado tal decisão que me deprime. Me faz lembrar da infância, quando riam de mim pelo excesso de pelos espalhado pelo corpo. Eram piadinhas por trás, apelidos desagradáveis, nada que incentivasse a me sentir livre e ignorar as opiniões alheias.

Desde cedo fui obrigada a tirar qualquer pelo notável: o bigode, a (quase) monocelha, pernas e coxas, axilas, sem contar que isso era quase uma obrigação para tirar os pelos pubianos. Salvei os pelos dos braços. Decidi descolorir. Fui do pior ao menos pior. Passar 20 minutos com o teu corpo inteiro coberto por um produto irritante, com cheiro forte que te faz sentir agoniada como se mil formigas estivessem andando sobre a tua pele, te faz lacrimejar os olhos e te impede de respirar normalmente. Assim, não desconstruí a ideia de não ter pelos, apenas fiz com que eles se tornassem menos feios aos olhos de quem os vêem.

Me pegar pensando no que iriam achar se percebessem um pelo fora do lugar tomou todas as horas do meu dia, da minha semana, da minha vida. É desesperador tentar balancear entre agir normalmente com os outros e prestar atenção para ver se alguém te olha com cara de nojo por causa da sua “penugem”. [Por que se assustar tanto com isso? Não é normal que esse filamento nasça no corpo do ser humano? Ou as mulheres não são seres humanos?].

Me fizeram acreditar que ninguém me aceitaria se não seguisse o padrão estético midiático e que eu me tornaria um ponto fora da curva se ousasse a ignorá-lo. Ou seja, aqueles que me julgam assim, pouco se importam com o meu desconforto por dizerem o que devo ou não fazer; se sofro ou aceito tamanha repressão, faz parte da vida e sigamos sem questionar.

Me acorrenta até hoje essa aflição de pelos no meu corpo. Por mais que já tenha aceitado os inchaços que o constitui, os meus pelos continuam me incomodando até quando eu menos espero. Tentaram fazer com que eu sentisse nojo do meu próprio corpo. Me rotularam como menos mulher por ter mais pelos que as outras. Tentaram… porque eu acordei antes de se estabelecer esta ideia e eu ficar, para sempre, aprisionada nessas classificações inscientes.
Reflito em como seria um avanço à humanidade se houvesse um desvio deste padrão de beleza, ou se, simplesmente, não existisse padrão de beleza algum. Se a ditadura da estética ideal fosse suprida pelo simples fato de nos sentirmos livre como bem entendermos.

Voltemos à antiguidade, quando não havia gordofobia e onde os pelos eram bem visto – e até charmosos – pela sociedade. Chega de etiquetarmos uns aos outros. Chega de dar mais atenção àquilo que nos cega e nos impede de ver a verdadeira beleza de cada um. Comecemos a fazer algo somente por nós mesmos e não para o outro.
Volto a me olhar no espelho. Me reconstruo. Nada que vem de outras cabeças, senão a minha, me atinge. Se pontos fora da curva são aqueles fora do padrão, sejamos todes pontos fora da curva!

– Por Larissa Bueno

Masoquismo feminino?

TDM_SERVICOS_LeiMariaDaPenha_600x400A gente aprende a aguentar, suportar, a viver com a dor. A gente coloca um monte de band-aids no pé para poder usar aquela sapatilha linda, uma roupa desconfortável para ficar mais bonita, 2 horas arrancando os cabelos para que estejam arrumados. A gente sobe no salto alto e quando desce é como se o pé ainda estivesse torto quando toca o chão. A gente passa um monte de cremes que deixam nossa pele rígida e reta. A gente se encolhe toda no ônibus para aguentar aquela cólica forte disfarçadamente. A gente passa cera quente na perna e arranca cada pelo num puxão. A gente aprende a passar reto e fingir que não doeu, quando gritam “vem cá, gata!” no meio da rua. A gente finge que não tem ciúmes, que não liga para isso, que não faz a menor diferença. A gente responde que “está tudo bem” quando o mundo está desmoronando na nossa cabeça. A gente sorri quando tem vontade de chorar.

Nós aprendemos a aguentar, porque somos fortes, aguentamos caladas, suportamos em silêncio, e a dor vira parte de um automatismo cotidiano. Somos tão fortes que o mundo não está preparado para ouvir de nós que isso “dói”, como se mulheres não sentissem dor. Sentir dor não configura fraqueza, admitir isso também não, mas somos guerreiras, não queremos dar o braço a torcer.

Não é masoquismo, é uma cobrança constante da sociedade que nos treina para sofrer e não demonstrar. Não podemos chorar, a dor faz parte até que se acostume com ela, então estaremos anestesiadas. Aprendemos a nos autoanestesiar para suportar, uma vez que a dor é constante e que só choramos sozinhas e em situações extremas. Eles vêm com um papo de que mulher é delicada e muito sensível, mas nós estamos aqui sofrendo caladas, não demonstrando a dor. Cada cantada na rua me arranca um pedaço, cada depilação me arranca um pedaço, cada puxão no cabelo me arranca um pedaço, cada estupro, cada tapa, cada grito, cada ameaça me arranca um pedaço, e logo estou destruída.

Então nos fazemos Frankenstein, juntando os cacos que sobram depois desse redemoinho que nos violenta, para se recompor e fingir de novo que está tudo bem. Mas não, não está tudo bem. A Marta morreu fazendo um aborto clandestino, porque o Estado negligencia sua condição e a criminaliza, punindo indiretamente com a morte. A Gabriela não conseguiu o emprego que queria, porque a empresa preferiu um homem branco a uma mulher negra para ocupar o cargo. A Soraia foi espancada pelo vizinho quando ele descobriu que ela era transexual. A Sophia não resistiu à lipoaspiração, depois de ter sofrido com a gordofobia a vida inteira. A Ligia foi expulsa de casa quando seus pais descobriram que ela tinha uma namorada. A Samanta foi ameaçada pelo marido quando propôs o divórcio. A Melissa pegou HIV depois de não ter achado alternativas à prostituição. A Carmen foi abusada enquanto gravava um filme pornográfico que tinha como objetivo atingir o público masculino. A Barbara apanhou do namorado depois de ele ter uma crise de ciúmes. A Sandra é explorada por um trabalho extremamente precarizado, com o qual ganha tão pouco que mal consegue alimentar os filhos, dos quais ela cuida sozinha.

Não está tudo bem, nossa dor é silenciada e abafada pelo Estado, pela mídia, pelo patrão da Sandra, pelo namorado da Barbara, pelos pais da Ligia. É uma violência física e simbólica que é ignorada, porque dói muito ver. Os gritos de socorro ecoam por todo o mundo e se você estiver atentx conseguirá ouvir. Somos fortes, mas tão fortes que nem reconhecemos nossa força, mas isso não é fácil e uma hora explode. A nossa dor é silenciada, a gente aprende a disfarçar, a fingir que “está tudo bem”. Isso não é masoquismo feminino, mas resultado da opressão de uma sociedade sádica. Vamos gritar, vamos escancarar, porque isso dói e não vamos sofrer caladas.

– Por Mari H.

Você não me quer livre

10815759_10154820480915363_1488203001_nEu demorei muito tempo pra alcançar a liberdade sexual que eu tenho hoje. Aquela que você, homem, aprendeu a ter desde sempre. Você não sabe como é querer dar pra alguém de primeira e se preocupar com o que as pessoas vão achar. Vou resumir em três palavras: é uma merda. Porque sexo é bom, todo mundo gosta e todo mundo quer fazer sempre. Mas eu fui ensinada a “me dar o respeito”, a não ficar com um monte de gente, a casar virgem. A questão aqui não é essa. Eu já me libertei disso e você já tá bem avançadinho no debate do feminismo. Você acha lindo, você é pró-feminista, você entende a importância da liberdade sexual das mulheres, você apoia. A questão aqui é: quanto do seu discurso você coloca em prática?

Eu te pergunto isso por um motivo em especial: ninguém nunca se apaixonou por mim (e se você acha que eu estou escrevendo esse texto por recalque disso, por “falta de homem” ou algo do tipo, só vaza. Esse texto não é pra você. Você ainda não entendeu nem o básico do básico). E eu também nunca tinha me apaixonado por ninguém, e até aí ok. A questão central é: meus últimos três ou quatro relacionamentos começaram com uma foda. Uma bela foda. Não teve joguinho antes, não teve “conquista”. Foi papo reto. Nos pegamos e fomos direto pro motel – inclusive, eu que chamei. Nada de errado até aqui. Todos esses relacionamentos duraram alguns meses. Um rolou por quase um ano. E daí? Daí que o tempo passa e eu começo a curtir o cara. E ele não. Ele perde o interesse. Ele não se apaixona. Eu pararia por aqui (ou, na verdade, nem escreveria esse texto) se eu achasse simplesmente que eu sou desinteressante. Não é o caso. E pode parecer arrogância, mas eu demorei muito tempo pra conseguir levantar minha auto estima, então foda-se você se você acha que é arrogância. É só a constatação do fato de que eu sou foda.

Antes de continuar, vou fazer um adendo. Desde que eu alcancei a tal da liberdade sexual (que é incrível, por sinal), eu sou solteira. Eu queria aproveitar essa liberdade, não ficar com um cara só, aquela coisa que você, homem, já conhece bem. Mas depois de alguns anos solteira, eu comecei a querer algo mais sério. Só porque sim. E aí começou essa sequência de três ou quatro relacionamentos que começaram e acabaram de forma parecida. No começo, aquela bela foda; no fim, uma bela mulher fodida.

Agora voltando: é, eu sou foda. Mas eu duvidei disso por muito tempo. E o que eu ouvi de um desses moços é que ninguém ter se apaixonado por mim não quer dizer que eu não sou apaixonante (o que, segundo ele, eu sou), só quer dizer que eu “não sei jogar”. Aí eu fico pensando aqui. Se a gente não tivesse transado de cara, se eu tivesse feito charme, deixado (e ficado!) na vontade, será que ele teria se apaixonado por mim? Sinceramente, acho até provável. A questão é que eu não jogo. Eu odeio joguinho. Eu lanço o papo reto e quem querer quereu. Porque eu não curto adiar orgasmo. Mas será que eu troquei um ~amor~ por seis meses do melhor sexo da minha vida?

Aí eu tenho uma pergunta: por que uma coisa exclui a outra? Você vai dizer que não, que só não rolou, sei lá, não era pra ser. Você, por exemplo, não liga pra essas coisas, você não faz aquela famosa divisão das mulheres entre mulher pra casar e mulher pra comer. Ok, aceito que no discurso você não faz mesmo. Mas será que você desconstruiu isso, assim, de verdade? Mesmo, mesmo? Porque uma coisa é fato. Quando isso deixa de ser determinante pra você (não) se apaixonar por alguém, você, homem, acabou de perder um privilégio. Simples assim, puf, cabô. E você odeia isso. Lá no fundo, eu sei que você odeia. Por mais inconsciente que seja, por mais que você diga que seus privilégios têm que acabar, por mais que você defenda a igualdade de gêneros, você odeia perder privilégios.

Pois bem, poder transar livremente com quem você quiser sem que isso te coloque automaticamente na categoria do “não presta” é legal né? Você gosta e tal. Isso não deveria nem ser uma questão, e pra você, de fato, nunca foi. Mas eu comecei a perceber que a minha liberdade sexual deixa os homens desconfortáveis. Vocês não estão prontos pra um relacionamento de igual pra igual, sem macho alfa. Algumas mulheres perceberam isso antes de mim, e aí o que elas fazem? Jogam. Elas se reprimem e se comportam como acham que devem pra você, homem, não carimbá-las com um pra comer. Mas ela não deveria se sentir na obrigação de fazer isso.

Desde que eu entendi que posso dar pra quem eu quiser quando eu quiser, a minha política foi a de cagar pra esses joguinhos e pros homens que queriam esses joguinhos. Eu pensava “bom, se você acha isso, você é um machistinha de merda, vlw flws. Vou achar alguém que não seja”. Aí eu vi você, homem pró-feminista super avançado no debate, querer a mesma coisa que aqueles machistinhas de merda. E entendi que por mais que você se esforce pra entender as pautas feministas, por mais que você apoie, o machismo não te deixa ignorar essas coisas. Mesmo que você nem perceba, essas coisas são determinantes na hora de você escolher com quem vai se relacionar e como. No fim das contas, você não vai se apaixonar por mim porque a minha liberdade te ameaça. Eu, que fui criada pra ser sexualmente submissa e pra servir como seu objeto de prazer, agora sirvo às minhas próprias vontades, aos meus próprios desejos. Eu não te sirvo, então você não me quer.

É importante lembrar, porém, que tudo isso é construção social, o que significa que pode ser desconstruído. Você, que já desconstruiu várias coisas no discurso, tem a opção (e o dever) de desconstruir na prática. Mas como? É foda. Ainda mais se levarmos em conta que se apaixonar não é algo racional. Então como controlar?

Amigo, eu não estou dizendo pra você se apaixonar por todas as mulheres com quem você transar de primeira. Porque não é isso que conta, existem milhares de outros fatores. A questão aqui é que isso não deve contar. A tarefa aqui é fazer isso não contar. É uma tarefa foda, e eu não acho que eu vá conseguir completá-la. Talvez essa tarefa nem seja minha, eu estou aqui mais pra apresentar o diagnóstico. Você, que desconstruiu um monte de coisas na sua vida de homem pró-feminista, tem que desconstruir mais isso. Mas assim, de verdade, não só no discurso, da boca pra fora. Você tem que acreditar nisso. Porque se você não fizer isso, você vai ser – na prática – só mais um daqueles machistinhas de merda. E você não quer isso, né? Pois é, nem eu.

– Por B.V.T.

Sobre a cor da minha pele

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Um título bem simples para eu explicar o que, pra mim, às vezes é tão complicado.

Porque ser negro, ter a pele negra é complicado. É complicado sim!

Este não é mais um texto sobre a escravatura ou sobre o que meus irmãos de raça e cor antepassados sofreram nas mãos dos brancos. Não, aqui vou falar um pouco – abertamente e à vontade – sobre como é, PARA MIM, ser da raça negra, ter a pele negra.

Primeiro voltando lá na infância, nos meus tempos de escola primária. Ali já era complicado. Mas o que é complicado pra uma criança? Todos não dizem que as crianças não fazem distinção? Que elas são livres de preconceito?

Sim – pelo menos as crianças com quem convivi nunca fizeram distinção, nem nunca se dirigiram a mim de forma racista. Não, essa parte era simples. Complicado mesmo era usar produtos para alisar os cabelos aos cinco de idade.  Sempre ao pentear os cabelos eu tinha de ouvir que o meu cabelo era “ruim”, “feio”, “duro” e que por isso eu tinha que usar aqueles produtos para poder domá-lo e ficar arrumada como as meninas de cabelo “bom”. Isso criou uma insegurança em mim logo criança, de forma que eu nunca, NUNCA achava que o meu cabelo estava bom. Eu ficava olhando o cabelo das outras meninas e desejando que numa próxima vida tivesse a “sorte” de não nascer com o cabelo “ruim”, porque não adiantava o quanto de produto eu usasse e quanto tempo deixasse essas pastas – pesadas-no cabelo para que eles ficassem lisos, nunca estaria “bom”, após um tempo o cabelo “ruim” iria dar as caras novamente em forma de raiz. Cinco anos, eu disse?

De uma criança insegura eu passei para uma adolescente beeem mais insegura. Adolescência já é um saco, pra mim, era um porre sem cachaça! Ah não, não estou me fazendo de vítima da vida, nem quero, mas nessa altura, a insegurança com o cabelo era maior e aí começou a rolar insegurança com os traços e a cor da pele. BAM!

Agora já não era só o cabelo “ruim”. Deram pra me chamar de beiçuda e fazer as famosas piadinhas sobre preto. Para alguns pode parecer bobo, mas,pra mim, era odioso a forma como algumas palavras como” beiçuda” eram entoadas.  Por quê ter a boca grande é ruim? Ou feio? Eu não pedi isso. Não tenho como mudar. As piadinhas prefiro nem comentar, basta dizer que muitas vezes tive que rir do que eu não achava engraçado  pra não chorar e demonstrar fraqueza diante dos outros – Hoje quando quero chorar e tem gente por perto, foda-se o mundo. Caguei.

Quando as garotas de “boca normal” queriam destaque, usavam um batom. Eu tinha medo e horror a batom. Como é que eu vou diminuir esse raio dessa boca pra eles me deixarem em paz? Na minha concepção, eu não me encaixava com minhas proporções esquisitas e feias de nariz grande, boca grande , cabelo “ruim” e pele “que não combinava com tudo” como os demais. E isso é complicado.  Por volta dos 16, quando comecei a trabalhar fora é que eu fui desconstruindo um pouco essa imagem que, juntamente com a sociedade ao meu redor, eu criei pra mim. Logo nas primeiras semanas de trabalho, a palavra “bocão” não era perjúrio, era dita de forma a elogiar, e isso me confundia. Esse pessoal tem problema? Como assim esse “beiço” todo pode ser bonito? Gente estranha.

Num dia não tive tempo de escovar e pranchar os cabelos e vieram mais elogios:

-Nossa, como seu cabelo é bonito natural! Use ele assim!

Oi? Sair com essa “bucha” assim na rua? Você tem probleminha? Miopia?

E vieram mais e mais desses.

Num surto de ousadia, usei uma blusa verde. VERDE MESMO. Fiquei maravilhada de não ser vista como um E.T, assim como eu imaginava o que seria sair usando cores fortes, por estar com aquela blusa. Desde lá detrás, eu tinha a ideia fixa de que não seria apropriado usar roupas coloridas, porque lá alguém havia me dito que “não combinava”.

Até aqui eu tinha  me livrado do fantasma da boca e das cores, mais ainda não aceitava totalmente meu cabelo. Raramente eu usava de forma natural, sempre usando produtos relaxantes e alisantes e não abandonava a tal da chapinha. Ir a lugares como praia e piscina era um pesadelo – Eles vão ver meu cabelo natural.  Isso era complicado. Quantas coisas eu deixei de fazer por conta disso?! Incrível como o padrão imposto pela mídia e sociedade podem afetar a nossa mente. Eu demorei pra enxergar isso. Precisei ir mais fundo.

Uma vez, passeando no mercado com meu afilhado – ele é branco, olhos azuis, cabelos louríssimos, quase brancos – e o sogro da minha amiga, eis que uma senhora , vizinha dele, para pra nos cumprimentar e pergunta se eu sou a nova babá – Será que isso mexeu comigo?

Mas não era o bastante, não quando se pode encontrar gente escrota de todos os tipos por aí.

Num belo dia – era mesmo um belo dia- em que eu estive no show da minha banda favorita, eu acredito ter chegado a esse nível de profundidade que eu precisava pra enxergar melhor as coisas, pra me aceitar – porque, eu não sei em outras partes do mundo, mas no Brasil o negro tem que se aceitar, se assumir. E isso também é complicado, visto que os heróis que poderíamos nos espelhar são sempre visto de forma errada, como coitados e não como bravos – Pense em Martin Luther King Jr, nos EUA as pessoas QUEREM se assumir negros, porque eles enxergam de uma forma bonita e honrosa, não sou ingênua, nem todos, é claro, não estou generalizando, mas você pode pensar numa massa esmagadora em comparação ao Brasil. O negro no Brasil é retratado sempre como inferior, nosso passado é escravo, na televisão somos bandidos, pessoas sem cultura e propriedades, estamos sempre abaixo da borda. Quem quer se assumir dessa forma? Com essa visão? Temos um belo exemplo citando o nosso querido e amado e pomposo e tudo o mais que quiserem botar de título no “Rei” Pelé. Este é um cara negro que ao ficar rico se tornou branco. Na boa, se eu dia eu for rica, quero ser uma negra rica, não ser “igualada” aos demais nas rodas sociais, porque quando não estiver lá, as piadas e comentários racistas não feitos em minha presença continuarão, eu tenho certeza. Pro inferno o Pelé com seus títulos e dinheiro! Esse não é o exemplo de negro com “poder” em que eu me espelharia. Ta vendo como é complicado? Aqui no Brasil o negro quer ser branco. Complicado.

Voltando do dia do show, nesse dia eu ouvi uma das piores coisas que já foram direcionadas a mim. Ao término do show, na volta pra casa, fui procurar um táxi pra ir embora, eu havia ido sozinha e quando saí já era tarde. Esperando meu táxi toda animada com a experiência que tinha acabado de experimentar – Nunca tinha ido ao show dessa banda – me deparo com a seguinte situação:

Eu, à frente da fila e logo atrás uma família, ao que me pareceu, a mãe, duas filhas e o pai mais afastado ao fundo. Então a mãe fala para a filha mais velha, alto o suficiente para que eu possa ouvir “Estou cansada desse país cheio de pretos, onde quer que você vá, tem um”…

Muito bem, eu não sei, não sei mesmo descrever aqui o que se passou dentro de mim naquele momento. Eu posso simplificar dizendo que eu fiquei muito triste. Que vontade de sair da terra, cheia de humanos onde a cor da minha pele é uma ofensa aos presentes. Quando chegou o carro e eu entrei, desmoronei. O que diacho eu tinha feito para aquela mulher? Por que ela me odiava tanto? O que tem de errado na cor da minha pele? Por que isso incomoda?

Chorei bastante aquela noite.

Mas eu precisei disso pra pôr fim nos meus próprios preconceitos comigo mesma. Sozinha eu e eu mesma, eu entendi que eu não era o problema. Não é feio ter o cabelo crespo, não é feio eu usar cores, sim elas combinam com a minha pele sim! Não, eu não “dei azar” de nascer com a pele escura, não! Isso é ridículo, as pessoas são ridículas e eu não sou inferior! Porra!

É complicado ser negra quando te fazem acreditar nessas coisas. É complicado quando a sociedade te faz complicar o que deveria ser simples.  É complicado quando te fazem acreditar que você não é normal. É complicado quando te fazem pensar que “deu azar”… É complicado.

É difícil tentar expressar esse tipo de coisa, essa visão, quando pra maioria tudo é normal, é frescura, “mimimi quero cota”… Que seja. Mas só quem vivencia isso sabe o peso que uma palavra que a alguém perece normal dita de certa forma, direcionada a certa pessoa pode se tornar um tapa que o tempo não tira as marcas.

Dizer que esse tipo de coisa não me afeta mais seria mentir. Hoje não mais como antes. Eu me assumo, mas isso não torna menos complicado.

Por Daiane Miranda

Meu ciúme não é igual ao seu

10698679_1481397342139043_4428472308016065115_nDe acordo com a psicóloga clínica (que estuda transtornos mentais e aspectos psicológicos em doenças não-mentais) Mariagrazia Marini, o ciúme tem caráter instintivo e natural, podendo, em alguns casos, ser obsessivo. Existem teses dentro da psicologia que relacionam o ciúme ao Complexo de Édipo, argumentando que a ‘obsessão’ seria resultado do resquício persistente de um apego ainda infantil aos pais, que, no caso, seria ‘transferido’ para outras pessoas. Os estudos também tentam descrever as emoções que esse sentimento pode trazer, como dor, raiva, tristeza, depressão, insegurança e medo; os pensamentos de culpa, ressentimento, rivalidade e autocomiseração do ciumento; reações físicas resultantes do ciúme, como aceleração do batimento cardíaco, sensação de “choque na espinha”, calor repentino, falta de ar e sudorese; e também relacionar com comportamentos em resposta a essa sensação, como a busca frenética por autoconfirmação (como esperar ser constantemente elogiadx pelx pareceirx), questionamentos constantes (sobre se x parceirx ainda x ama) e também comportamentos agressivos e violentos decorrentes disso. Porém, essa análise trata de apenas um tipo de “ciúme”, não distinguindo aquele sentido por homens daquele sentido por mulheres, nem investigando se há diferenças entre o ciúme sentido por um homem heterossexual do sentido por um homem homo ou bissexual. Isso talvez negligencie toda uma estrutura que permeia as relações sociais.

Não é exclusividade da nossa sociedade contemporânea viver em um sistema patriarcal. Desde a Grécia Antiga “patriarcado” já se referia a um território governado por um patriarca (“chefe de família, homem adulto”), e os hebreus também reconheciam a orientação masculina da organização social. Toda nossa história esteve banhada por uma ideologia patriarcal e machista que coloca o homem adulto como maior autoridade e os demais como submissos a ele, em uma constante relação de subordinação que sempre era garantida através da manutenção do poder pelo pater. Dessa forma, ao longo do tempo permaneceram e foram concretizadas as relações sociais de forma desigual e hierarquizada, nas quais as estruturas de subordinação foram socialmente solidificadas.

Além disso, a escravidão também manchou grande parte da nossa história, sendo que só no Brasil (que tem uma história recente em comparação aos Estados europeus) , desde 1500 até hoje foram 388 anos de escravidão (de 1500 a 1530 principalmente escravidão indígena e de 1530 a 1888 escravidão predominantemente de africanos) contra apenas 126 anos de trabalho livre. Ou seja, a maior parte de nossa história está marcada pela lógica escravocrata, e os demais anos sofreram profundos impactos disso. A ideologia escravista também colocava o homem branco como autoridade e os demais como seus subordinados, inclusive tratando os subordinados como objetos, como mercadoria. Então lidamos com um sentimento de posse pelas pessoas, algo intimamente relacionado ao posto de “senhor de escravos”. Essa objetificação das pessoas precede a colonização do Brasil: desde a Antiguidade, quem perdia as guerras passava a ser escravo dos guerreiros vitoriosos, de forma que o pater passasse a manter uma relação de domínio sobre os escravos, os filhos e a esposa.

Todas essas estruturas sociais tiveram impacto na forma como as pessoas se relacionam. O próprio relacionamento monogâmico é, em parte, influência de uma construção social, e não se pode dizer com certeza até onde isso é fruto das tradições e até onde isso é “natural” ou “biológico”. Mas as relações monogâmicas garantem a passagem da propriedade através das gerações, em famílias nucleares e lideradas por um ‘pater’. Hoje, mesmo com a CLT e com os direitos e garantias das mulheres, ainda persistem fortes traços dessas ideologias patriarcal, machista e possessiva, de modo que se manifestem através das várias relações sociais, desde no mercado de trabalho, onde a mulher negra recebe em média cerca de 80% a menos que um homem branco, até nas relações afetivas, que não estão imunes a esses impactos.

Pedi para que várias pessoas (tanto homens -cis e trans- hetero, quanto homo e bissexuais, e mulheres -cis e trans- hetero, homo e bissexuais) descrevessem como e o que sentem quando têm ciumes, e as respostas apresentaram certos padrões. Em todas as respostas, o ciúme se manifestou como insegurança e medo de perder a pessoa amada, mas haviam diferenças entre os ciúmes. Os homens heterossexuais encararam, muitas vezes, o ciúme como algo que transforma a parceira em uma “possessão”. Muitos também descreveram sentir raiva, depressão e tristeza, além de um sentimento de rivalidade com os outros homens. Alguns relataram histórias em que a mulher era tratada como posse deles, e em que eles se sentiam extrememente incomodados e desafiados quando ela conversava com outro homem. Já as mulheres heterossexuais deram mais ênfase para um sentimento de inferioridade, um medo de serem trocadas, disseram se sentir impotentes e insuficientes. Muitas manifestaram a sensação de não se sentirem “boas o bastante” e medo de que o parceiro encontrasse “alguém melhor” a qualquer momento. Os homens LGBTTs disseram se sentir ignorados e deixados de lado quando enciumados, além de ficarem profundamente tristes e até sentirem dor. Também relataram a sensação de não serem mais amados e de não terem mais importância. E por fim, as mulheres LGBTTs contaram ter medo de serem trocadas, de serem abandonadas, além da forte insegurança.

Portanto, é até um pouco injusto conceituar “ciumes” dessa forma indiferenciada. Os homens heterossexuais demonstraram, além da insegurança e medo de ficar sozinhos, um sentimento forte de posse sobre a companheira. Não é a toa que tantas mulheres sejam vítimas de “crimes passionais”, que seja tão comum homens violentando mulheres por conta de ciúmes e tratarem os corpos femininos como parte de sua propriedade. Já as mulheres descreveram se sentir inferiorizadas e um grande medo de serem trocadas por outras, o que também é reflexo de uma estrutura social: existe todo um sistema que elege a “miss universo”, que aponta defeitos nos corpos de todas nós, que idolatra a magreza e a artificialidade; que impõe a beleza de photoshop e cria uma mulher não-natural como padrão a ser seguido, mas impossível de ser atingido. Toda essa imposição, essa cobrança estética hostiliza as mulheres e aplica uma política de “ódio a si mesma”, fazendo com que as mulheres se sintam muito inseguras com seus corpos, tenham uma constante baixa auto-estima. Isso tudo resulta em uma insegurança excessiva por parte da mulher, que é refletida nas relações amorosas, como no fato da mulher não se sentir “boa o bastante”, se sentir “impotente”, “insuficiente” para o homem. Além disso, os homens heterossexuais são ensinados desde pequenos que podem “conquistar várias garotas”, que devem ser “pegadores”, e a ‘poligamia’ masculina é tratada como normal. O que não acontece com a mulher, que é ensinada a ser monogâmica e fiel a um único homem, a elas é contado que existe um “príncipe encantado” e que “mulher galinha é feio”. Portanto, a poligamia masculina é socialmente aceita, enquanto a feminina é fortemente rejeitada, o que também reproduz reflexos nas relações entre homens e mulheres. O sentimento dos homens e mulheres LGBTTs foram, em geral, bastante parecidos com os das mulheres heterossexuais, e demonstraram insegurança também, mas, principalmente, uma forte frustração, tristeza e sensação de terem sidos substituídos, deixados de lado. Não houve relatos de raiva no caso de ver x parceirx com outro, mas frustração e tristeza e sensação de impotência. Isso porque tanto homens quanto mulheres LGBTTs também são fortemente oprimidos pela sociedade patriarcal e heteronormativa, de forma que os reflexos dessas estruturas nas relações amorosas sejam bastante parecidos com àqueles relatados no caso das mulheres heterossexuais.

Concluindo: o ciúme sentido por homens heterossexuais é diferente daquele sentido por mulheres e pessoas LGBTTs em geral. Por isso é injusto tratar mulheres como “loucas ciumentas” como é frequente em filmes e séries de TV, sem investigar as causas sociais disso. O ciúme talvez seja natural e instintivo, mas é inegável seu caráter social, e aquilo que não for natural pode ser desconstruido aos poucos pelo casal: a desconstrução do sentimento possessivo por parte do homem (que antes precisa reconhecer isso para então evitar) e buscar se amar como é, no caso da mulher. Porque por mais que a mídia e toda a estrutura patriarcal esteja pondo constantemente sua auto-estima a prova, buscar gostar de si e negar os padrões impostos não é um ato vaidoso, mas um ato político em direção a uma emancipação feminina das correntes estéticas.