Meu ciúme não é igual ao seu

10698679_1481397342139043_4428472308016065115_nDe acordo com a psicóloga clínica (que estuda transtornos mentais e aspectos psicológicos em doenças não-mentais) Mariagrazia Marini, o ciúme tem caráter instintivo e natural, podendo, em alguns casos, ser obsessivo. Existem teses dentro da psicologia que relacionam o ciúme ao Complexo de Édipo, argumentando que a ‘obsessão’ seria resultado do resquício persistente de um apego ainda infantil aos pais, que, no caso, seria ‘transferido’ para outras pessoas. Os estudos também tentam descrever as emoções que esse sentimento pode trazer, como dor, raiva, tristeza, depressão, insegurança e medo; os pensamentos de culpa, ressentimento, rivalidade e autocomiseração do ciumento; reações físicas resultantes do ciúme, como aceleração do batimento cardíaco, sensação de “choque na espinha”, calor repentino, falta de ar e sudorese; e também relacionar com comportamentos em resposta a essa sensação, como a busca frenética por autoconfirmação (como esperar ser constantemente elogiadx pelx pareceirx), questionamentos constantes (sobre se x parceirx ainda x ama) e também comportamentos agressivos e violentos decorrentes disso. Porém, essa análise trata de apenas um tipo de “ciúme”, não distinguindo aquele sentido por homens daquele sentido por mulheres, nem investigando se há diferenças entre o ciúme sentido por um homem heterossexual do sentido por um homem homo ou bissexual. Isso talvez negligencie toda uma estrutura que permeia as relações sociais.

Não é exclusividade da nossa sociedade contemporânea viver em um sistema patriarcal. Desde a Grécia Antiga “patriarcado” já se referia a um território governado por um patriarca (“chefe de família, homem adulto”), e os hebreus também reconheciam a orientação masculina da organização social. Toda nossa história esteve banhada por uma ideologia patriarcal e machista que coloca o homem adulto como maior autoridade e os demais como submissos a ele, em uma constante relação de subordinação que sempre era garantida através da manutenção do poder pelo pater. Dessa forma, ao longo do tempo permaneceram e foram concretizadas as relações sociais de forma desigual e hierarquizada, nas quais as estruturas de subordinação foram socialmente solidificadas.

Além disso, a escravidão também manchou grande parte da nossa história, sendo que só no Brasil (que tem uma história recente em comparação aos Estados europeus) , desde 1500 até hoje foram 388 anos de escravidão (de 1500 a 1530 principalmente escravidão indígena e de 1530 a 1888 escravidão predominantemente de africanos) contra apenas 126 anos de trabalho livre. Ou seja, a maior parte de nossa história está marcada pela lógica escravocrata, e os demais anos sofreram profundos impactos disso. A ideologia escravista também colocava o homem branco como autoridade e os demais como seus subordinados, inclusive tratando os subordinados como objetos, como mercadoria. Então lidamos com um sentimento de posse pelas pessoas, algo intimamente relacionado ao posto de “senhor de escravos”. Essa objetificação das pessoas precede a colonização do Brasil: desde a Antiguidade, quem perdia as guerras passava a ser escravo dos guerreiros vitoriosos, de forma que o pater passasse a manter uma relação de domínio sobre os escravos, os filhos e a esposa.

Todas essas estruturas sociais tiveram impacto na forma como as pessoas se relacionam. O próprio relacionamento monogâmico é, em parte, influência de uma construção social, e não se pode dizer com certeza até onde isso é fruto das tradições e até onde isso é “natural” ou “biológico”. Mas as relações monogâmicas garantem a passagem da propriedade através das gerações, em famílias nucleares e lideradas por um ‘pater’. Hoje, mesmo com a CLT e com os direitos e garantias das mulheres, ainda persistem fortes traços dessas ideologias patriarcal, machista e possessiva, de modo que se manifestem através das várias relações sociais, desde no mercado de trabalho, onde a mulher negra recebe em média cerca de 80% a menos que um homem branco, até nas relações afetivas, que não estão imunes a esses impactos.

Pedi para que várias pessoas (tanto homens -cis e trans- hetero, quanto homo e bissexuais, e mulheres -cis e trans- hetero, homo e bissexuais) descrevessem como e o que sentem quando têm ciumes, e as respostas apresentaram certos padrões. Em todas as respostas, o ciúme se manifestou como insegurança e medo de perder a pessoa amada, mas haviam diferenças entre os ciúmes. Os homens heterossexuais encararam, muitas vezes, o ciúme como algo que transforma a parceira em uma “possessão”. Muitos também descreveram sentir raiva, depressão e tristeza, além de um sentimento de rivalidade com os outros homens. Alguns relataram histórias em que a mulher era tratada como posse deles, e em que eles se sentiam extrememente incomodados e desafiados quando ela conversava com outro homem. Já as mulheres heterossexuais deram mais ênfase para um sentimento de inferioridade, um medo de serem trocadas, disseram se sentir impotentes e insuficientes. Muitas manifestaram a sensação de não se sentirem “boas o bastante” e medo de que o parceiro encontrasse “alguém melhor” a qualquer momento. Os homens LGBTTs disseram se sentir ignorados e deixados de lado quando enciumados, além de ficarem profundamente tristes e até sentirem dor. Também relataram a sensação de não serem mais amados e de não terem mais importância. E por fim, as mulheres LGBTTs contaram ter medo de serem trocadas, de serem abandonadas, além da forte insegurança.

Portanto, é até um pouco injusto conceituar “ciumes” dessa forma indiferenciada. Os homens heterossexuais demonstraram, além da insegurança e medo de ficar sozinhos, um sentimento forte de posse sobre a companheira. Não é a toa que tantas mulheres sejam vítimas de “crimes passionais”, que seja tão comum homens violentando mulheres por conta de ciúmes e tratarem os corpos femininos como parte de sua propriedade. Já as mulheres descreveram se sentir inferiorizadas e um grande medo de serem trocadas por outras, o que também é reflexo de uma estrutura social: existe todo um sistema que elege a “miss universo”, que aponta defeitos nos corpos de todas nós, que idolatra a magreza e a artificialidade; que impõe a beleza de photoshop e cria uma mulher não-natural como padrão a ser seguido, mas impossível de ser atingido. Toda essa imposição, essa cobrança estética hostiliza as mulheres e aplica uma política de “ódio a si mesma”, fazendo com que as mulheres se sintam muito inseguras com seus corpos, tenham uma constante baixa auto-estima. Isso tudo resulta em uma insegurança excessiva por parte da mulher, que é refletida nas relações amorosas, como no fato da mulher não se sentir “boa o bastante”, se sentir “impotente”, “insuficiente” para o homem. Além disso, os homens heterossexuais são ensinados desde pequenos que podem “conquistar várias garotas”, que devem ser “pegadores”, e a ‘poligamia’ masculina é tratada como normal. O que não acontece com a mulher, que é ensinada a ser monogâmica e fiel a um único homem, a elas é contado que existe um “príncipe encantado” e que “mulher galinha é feio”. Portanto, a poligamia masculina é socialmente aceita, enquanto a feminina é fortemente rejeitada, o que também reproduz reflexos nas relações entre homens e mulheres. O sentimento dos homens e mulheres LGBTTs foram, em geral, bastante parecidos com os das mulheres heterossexuais, e demonstraram insegurança também, mas, principalmente, uma forte frustração, tristeza e sensação de terem sidos substituídos, deixados de lado. Não houve relatos de raiva no caso de ver x parceirx com outro, mas frustração e tristeza e sensação de impotência. Isso porque tanto homens quanto mulheres LGBTTs também são fortemente oprimidos pela sociedade patriarcal e heteronormativa, de forma que os reflexos dessas estruturas nas relações amorosas sejam bastante parecidos com àqueles relatados no caso das mulheres heterossexuais.

Concluindo: o ciúme sentido por homens heterossexuais é diferente daquele sentido por mulheres e pessoas LGBTTs em geral. Por isso é injusto tratar mulheres como “loucas ciumentas” como é frequente em filmes e séries de TV, sem investigar as causas sociais disso. O ciúme talvez seja natural e instintivo, mas é inegável seu caráter social, e aquilo que não for natural pode ser desconstruido aos poucos pelo casal: a desconstrução do sentimento possessivo por parte do homem (que antes precisa reconhecer isso para então evitar) e buscar se amar como é, no caso da mulher. Porque por mais que a mídia e toda a estrutura patriarcal esteja pondo constantemente sua auto-estima a prova, buscar gostar de si e negar os padrões impostos não é um ato vaidoso, mas um ato político em direção a uma emancipação feminina das correntes estéticas.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s