Sobre a cor da minha pele

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Um título bem simples para eu explicar o que, pra mim, às vezes é tão complicado.

Porque ser negro, ter a pele negra é complicado. É complicado sim!

Este não é mais um texto sobre a escravatura ou sobre o que meus irmãos de raça e cor antepassados sofreram nas mãos dos brancos. Não, aqui vou falar um pouco – abertamente e à vontade – sobre como é, PARA MIM, ser da raça negra, ter a pele negra.

Primeiro voltando lá na infância, nos meus tempos de escola primária. Ali já era complicado. Mas o que é complicado pra uma criança? Todos não dizem que as crianças não fazem distinção? Que elas são livres de preconceito?

Sim – pelo menos as crianças com quem convivi nunca fizeram distinção, nem nunca se dirigiram a mim de forma racista. Não, essa parte era simples. Complicado mesmo era usar produtos para alisar os cabelos aos cinco de idade.  Sempre ao pentear os cabelos eu tinha de ouvir que o meu cabelo era “ruim”, “feio”, “duro” e que por isso eu tinha que usar aqueles produtos para poder domá-lo e ficar arrumada como as meninas de cabelo “bom”. Isso criou uma insegurança em mim logo criança, de forma que eu nunca, NUNCA achava que o meu cabelo estava bom. Eu ficava olhando o cabelo das outras meninas e desejando que numa próxima vida tivesse a “sorte” de não nascer com o cabelo “ruim”, porque não adiantava o quanto de produto eu usasse e quanto tempo deixasse essas pastas – pesadas-no cabelo para que eles ficassem lisos, nunca estaria “bom”, após um tempo o cabelo “ruim” iria dar as caras novamente em forma de raiz. Cinco anos, eu disse?

De uma criança insegura eu passei para uma adolescente beeem mais insegura. Adolescência já é um saco, pra mim, era um porre sem cachaça! Ah não, não estou me fazendo de vítima da vida, nem quero, mas nessa altura, a insegurança com o cabelo era maior e aí começou a rolar insegurança com os traços e a cor da pele. BAM!

Agora já não era só o cabelo “ruim”. Deram pra me chamar de beiçuda e fazer as famosas piadinhas sobre preto. Para alguns pode parecer bobo, mas,pra mim, era odioso a forma como algumas palavras como” beiçuda” eram entoadas.  Por quê ter a boca grande é ruim? Ou feio? Eu não pedi isso. Não tenho como mudar. As piadinhas prefiro nem comentar, basta dizer que muitas vezes tive que rir do que eu não achava engraçado  pra não chorar e demonstrar fraqueza diante dos outros – Hoje quando quero chorar e tem gente por perto, foda-se o mundo. Caguei.

Quando as garotas de “boca normal” queriam destaque, usavam um batom. Eu tinha medo e horror a batom. Como é que eu vou diminuir esse raio dessa boca pra eles me deixarem em paz? Na minha concepção, eu não me encaixava com minhas proporções esquisitas e feias de nariz grande, boca grande , cabelo “ruim” e pele “que não combinava com tudo” como os demais. E isso é complicado.  Por volta dos 16, quando comecei a trabalhar fora é que eu fui desconstruindo um pouco essa imagem que, juntamente com a sociedade ao meu redor, eu criei pra mim. Logo nas primeiras semanas de trabalho, a palavra “bocão” não era perjúrio, era dita de forma a elogiar, e isso me confundia. Esse pessoal tem problema? Como assim esse “beiço” todo pode ser bonito? Gente estranha.

Num dia não tive tempo de escovar e pranchar os cabelos e vieram mais elogios:

-Nossa, como seu cabelo é bonito natural! Use ele assim!

Oi? Sair com essa “bucha” assim na rua? Você tem probleminha? Miopia?

E vieram mais e mais desses.

Num surto de ousadia, usei uma blusa verde. VERDE MESMO. Fiquei maravilhada de não ser vista como um E.T, assim como eu imaginava o que seria sair usando cores fortes, por estar com aquela blusa. Desde lá detrás, eu tinha a ideia fixa de que não seria apropriado usar roupas coloridas, porque lá alguém havia me dito que “não combinava”.

Até aqui eu tinha  me livrado do fantasma da boca e das cores, mais ainda não aceitava totalmente meu cabelo. Raramente eu usava de forma natural, sempre usando produtos relaxantes e alisantes e não abandonava a tal da chapinha. Ir a lugares como praia e piscina era um pesadelo – Eles vão ver meu cabelo natural.  Isso era complicado. Quantas coisas eu deixei de fazer por conta disso?! Incrível como o padrão imposto pela mídia e sociedade podem afetar a nossa mente. Eu demorei pra enxergar isso. Precisei ir mais fundo.

Uma vez, passeando no mercado com meu afilhado – ele é branco, olhos azuis, cabelos louríssimos, quase brancos – e o sogro da minha amiga, eis que uma senhora , vizinha dele, para pra nos cumprimentar e pergunta se eu sou a nova babá – Será que isso mexeu comigo?

Mas não era o bastante, não quando se pode encontrar gente escrota de todos os tipos por aí.

Num belo dia – era mesmo um belo dia- em que eu estive no show da minha banda favorita, eu acredito ter chegado a esse nível de profundidade que eu precisava pra enxergar melhor as coisas, pra me aceitar – porque, eu não sei em outras partes do mundo, mas no Brasil o negro tem que se aceitar, se assumir. E isso também é complicado, visto que os heróis que poderíamos nos espelhar são sempre visto de forma errada, como coitados e não como bravos – Pense em Martin Luther King Jr, nos EUA as pessoas QUEREM se assumir negros, porque eles enxergam de uma forma bonita e honrosa, não sou ingênua, nem todos, é claro, não estou generalizando, mas você pode pensar numa massa esmagadora em comparação ao Brasil. O negro no Brasil é retratado sempre como inferior, nosso passado é escravo, na televisão somos bandidos, pessoas sem cultura e propriedades, estamos sempre abaixo da borda. Quem quer se assumir dessa forma? Com essa visão? Temos um belo exemplo citando o nosso querido e amado e pomposo e tudo o mais que quiserem botar de título no “Rei” Pelé. Este é um cara negro que ao ficar rico se tornou branco. Na boa, se eu dia eu for rica, quero ser uma negra rica, não ser “igualada” aos demais nas rodas sociais, porque quando não estiver lá, as piadas e comentários racistas não feitos em minha presença continuarão, eu tenho certeza. Pro inferno o Pelé com seus títulos e dinheiro! Esse não é o exemplo de negro com “poder” em que eu me espelharia. Ta vendo como é complicado? Aqui no Brasil o negro quer ser branco. Complicado.

Voltando do dia do show, nesse dia eu ouvi uma das piores coisas que já foram direcionadas a mim. Ao término do show, na volta pra casa, fui procurar um táxi pra ir embora, eu havia ido sozinha e quando saí já era tarde. Esperando meu táxi toda animada com a experiência que tinha acabado de experimentar – Nunca tinha ido ao show dessa banda – me deparo com a seguinte situação:

Eu, à frente da fila e logo atrás uma família, ao que me pareceu, a mãe, duas filhas e o pai mais afastado ao fundo. Então a mãe fala para a filha mais velha, alto o suficiente para que eu possa ouvir “Estou cansada desse país cheio de pretos, onde quer que você vá, tem um”…

Muito bem, eu não sei, não sei mesmo descrever aqui o que se passou dentro de mim naquele momento. Eu posso simplificar dizendo que eu fiquei muito triste. Que vontade de sair da terra, cheia de humanos onde a cor da minha pele é uma ofensa aos presentes. Quando chegou o carro e eu entrei, desmoronei. O que diacho eu tinha feito para aquela mulher? Por que ela me odiava tanto? O que tem de errado na cor da minha pele? Por que isso incomoda?

Chorei bastante aquela noite.

Mas eu precisei disso pra pôr fim nos meus próprios preconceitos comigo mesma. Sozinha eu e eu mesma, eu entendi que eu não era o problema. Não é feio ter o cabelo crespo, não é feio eu usar cores, sim elas combinam com a minha pele sim! Não, eu não “dei azar” de nascer com a pele escura, não! Isso é ridículo, as pessoas são ridículas e eu não sou inferior! Porra!

É complicado ser negra quando te fazem acreditar nessas coisas. É complicado quando a sociedade te faz complicar o que deveria ser simples.  É complicado quando te fazem acreditar que você não é normal. É complicado quando te fazem pensar que “deu azar”… É complicado.

É difícil tentar expressar esse tipo de coisa, essa visão, quando pra maioria tudo é normal, é frescura, “mimimi quero cota”… Que seja. Mas só quem vivencia isso sabe o peso que uma palavra que a alguém perece normal dita de certa forma, direcionada a certa pessoa pode se tornar um tapa que o tempo não tira as marcas.

Dizer que esse tipo de coisa não me afeta mais seria mentir. Hoje não mais como antes. Eu me assumo, mas isso não torna menos complicado.

Por Daiane Miranda

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2 comentários sobre “Sobre a cor da minha pele

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