Masoquismo feminino?

TDM_SERVICOS_LeiMariaDaPenha_600x400A gente aprende a aguentar, suportar, a viver com a dor. A gente coloca um monte de band-aids no pé para poder usar aquela sapatilha linda, uma roupa desconfortável para ficar mais bonita, 2 horas arrancando os cabelos para que estejam arrumados. A gente sobe no salto alto e quando desce é como se o pé ainda estivesse torto quando toca o chão. A gente passa um monte de cremes que deixam nossa pele rígida e reta. A gente se encolhe toda no ônibus para aguentar aquela cólica forte disfarçadamente. A gente passa cera quente na perna e arranca cada pelo num puxão. A gente aprende a passar reto e fingir que não doeu, quando gritam “vem cá, gata!” no meio da rua. A gente finge que não tem ciúmes, que não liga para isso, que não faz a menor diferença. A gente responde que “está tudo bem” quando o mundo está desmoronando na nossa cabeça. A gente sorri quando tem vontade de chorar.

Nós aprendemos a aguentar, porque somos fortes, aguentamos caladas, suportamos em silêncio, e a dor vira parte de um automatismo cotidiano. Somos tão fortes que o mundo não está preparado para ouvir de nós que isso “dói”, como se mulheres não sentissem dor. Sentir dor não configura fraqueza, admitir isso também não, mas somos guerreiras, não queremos dar o braço a torcer.

Não é masoquismo, é uma cobrança constante da sociedade que nos treina para sofrer e não demonstrar. Não podemos chorar, a dor faz parte até que se acostume com ela, então estaremos anestesiadas. Aprendemos a nos autoanestesiar para suportar, uma vez que a dor é constante e que só choramos sozinhas e em situações extremas. Eles vêm com um papo de que mulher é delicada e muito sensível, mas nós estamos aqui sofrendo caladas, não demonstrando a dor. Cada cantada na rua me arranca um pedaço, cada depilação me arranca um pedaço, cada puxão no cabelo me arranca um pedaço, cada estupro, cada tapa, cada grito, cada ameaça me arranca um pedaço, e logo estou destruída.

Então nos fazemos Frankenstein, juntando os cacos que sobram depois desse redemoinho que nos violenta, para se recompor e fingir de novo que está tudo bem. Mas não, não está tudo bem. A Marta morreu fazendo um aborto clandestino, porque o Estado negligencia sua condição e a criminaliza, punindo indiretamente com a morte. A Gabriela não conseguiu o emprego que queria, porque a empresa preferiu um homem branco a uma mulher negra para ocupar o cargo. A Soraia foi espancada pelo vizinho quando ele descobriu que ela era transexual. A Sophia não resistiu à lipoaspiração, depois de ter sofrido com a gordofobia a vida inteira. A Ligia foi expulsa de casa quando seus pais descobriram que ela tinha uma namorada. A Samanta foi ameaçada pelo marido quando propôs o divórcio. A Melissa pegou HIV depois de não ter achado alternativas à prostituição. A Carmen foi abusada enquanto gravava um filme pornográfico que tinha como objetivo atingir o público masculino. A Barbara apanhou do namorado depois de ele ter uma crise de ciúmes. A Sandra é explorada por um trabalho extremamente precarizado, com o qual ganha tão pouco que mal consegue alimentar os filhos, dos quais ela cuida sozinha.

Não está tudo bem, nossa dor é silenciada e abafada pelo Estado, pela mídia, pelo patrão da Sandra, pelo namorado da Barbara, pelos pais da Ligia. É uma violência física e simbólica que é ignorada, porque dói muito ver. Os gritos de socorro ecoam por todo o mundo e se você estiver atentx conseguirá ouvir. Somos fortes, mas tão fortes que nem reconhecemos nossa força, mas isso não é fácil e uma hora explode. A nossa dor é silenciada, a gente aprende a disfarçar, a fingir que “está tudo bem”. Isso não é masoquismo feminino, mas resultado da opressão de uma sociedade sádica. Vamos gritar, vamos escancarar, porque isso dói e não vamos sofrer caladas.

– Por Mari H.

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