Ditadura dos Pelos

10836341_1580938908794098_1894214476_nMe olho no espelho e, por muito tempo, observo cada parte do meu corpo. Às vezes preferiria não ter tomado tal decisão que me deprime. Me faz lembrar da infância, quando riam de mim pelo excesso de pelos espalhado pelo corpo. Eram piadinhas por trás, apelidos desagradáveis, nada que incentivasse a me sentir livre e ignorar as opiniões alheias.

Desde cedo fui obrigada a tirar qualquer pelo notável: o bigode, a (quase) monocelha, pernas e coxas, axilas, sem contar que isso era quase uma obrigação para tirar os pelos pubianos. Salvei os pelos dos braços. Decidi descolorir. Fui do pior ao menos pior. Passar 20 minutos com o teu corpo inteiro coberto por um produto irritante, com cheiro forte que te faz sentir agoniada como se mil formigas estivessem andando sobre a tua pele, te faz lacrimejar os olhos e te impede de respirar normalmente. Assim, não desconstruí a ideia de não ter pelos, apenas fiz com que eles se tornassem menos feios aos olhos de quem os vêem.

Me pegar pensando no que iriam achar se percebessem um pelo fora do lugar tomou todas as horas do meu dia, da minha semana, da minha vida. É desesperador tentar balancear entre agir normalmente com os outros e prestar atenção para ver se alguém te olha com cara de nojo por causa da sua “penugem”. [Por que se assustar tanto com isso? Não é normal que esse filamento nasça no corpo do ser humano? Ou as mulheres não são seres humanos?].

Me fizeram acreditar que ninguém me aceitaria se não seguisse o padrão estético midiático e que eu me tornaria um ponto fora da curva se ousasse a ignorá-lo. Ou seja, aqueles que me julgam assim, pouco se importam com o meu desconforto por dizerem o que devo ou não fazer; se sofro ou aceito tamanha repressão, faz parte da vida e sigamos sem questionar.

Me acorrenta até hoje essa aflição de pelos no meu corpo. Por mais que já tenha aceitado os inchaços que o constitui, os meus pelos continuam me incomodando até quando eu menos espero. Tentaram fazer com que eu sentisse nojo do meu próprio corpo. Me rotularam como menos mulher por ter mais pelos que as outras. Tentaram… porque eu acordei antes de se estabelecer esta ideia e eu ficar, para sempre, aprisionada nessas classificações inscientes.
Reflito em como seria um avanço à humanidade se houvesse um desvio deste padrão de beleza, ou se, simplesmente, não existisse padrão de beleza algum. Se a ditadura da estética ideal fosse suprida pelo simples fato de nos sentirmos livre como bem entendermos.

Voltemos à antiguidade, quando não havia gordofobia e onde os pelos eram bem visto – e até charmosos – pela sociedade. Chega de etiquetarmos uns aos outros. Chega de dar mais atenção àquilo que nos cega e nos impede de ver a verdadeira beleza de cada um. Comecemos a fazer algo somente por nós mesmos e não para o outro.
Volto a me olhar no espelho. Me reconstruo. Nada que vem de outras cabeças, senão a minha, me atinge. Se pontos fora da curva são aqueles fora do padrão, sejamos todes pontos fora da curva!

– Por Larissa Bueno

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Um comentário sobre “Ditadura dos Pelos

  1. Curti o texto e me identifiquei! Há pouco tempo, resolvi deixar de depilar as pernas. As outras três mulheres que vivem comigo (mãe, tia e avó) já fizeram questão de me dizer como minhas pernas “parecem patas de caranguejo”, estão “horríveis, horrorosas”. É triste, mas eu me olho e gosto do que vejo. Amo meus pêlos e desejo muito, mas muito que as pessoas que me cercam e que me amam deixem de me presentear com esses comentários maldosos. Boa sorte! Espero que consiga aceitar os seus pêlos ou pelo menos fazer da presença deles algo menos doloroso. Beijos

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