Rituais e cerimônias nas relações afetivas

Comunidade Trobriand - Nova Guiné
Comunidade Trobriand – Nova Guiné

Saiu recentemente uma pesquisa interessante de integrantes do Instituto de Pesquisa Mendacimano, sobre os rituais e cerimônias relativos às relações afetivas da tribo Escógita. O grupo de antropólogos estudou e conviveu com a tribo durante 18 anos e relatou alguns comportamentos relacionados ao modo como a sociedade escogitana organiza sua vida afetiva, apresentando vários comportamentos curiosos.

O relato começa com a descrição de como a sociedade organiza sua ideia de gênero. Antes mesmo do bebê nascer, quando a mãe está grávida, ela e seu companheiro visitam um templo no qual um tipo de vidente toca a mãe e tenta prever a genitália da criança. Dependendo dessa previsão, o casal reúne acessórios diferentes para oferecer como tributo à criança ao nascer, uma vez que nessa tribo há uma crença de que a genitália da criança determina seu gênero, ou seja, se ela será um homem ou uma mulher, classificando as duas figuras como absolutamente dicotômicas e, assim, associando diferentes acessórios e tributos a cada uma delas.

Como os homens na tribo são treinados para serem guerreiros, desde pequenos ganham acessórios relacionados à guerra, enquanto as mulheres são doutrinadas para serem boas mães, de forma que mesmo quando meninas recebem acessórios ligados à ideia de maternidade e responsabilidades a partir da vida de outro. A construção do masculino, sempre relacionada aos testículos, é a partir de uma figura de homem forte e esperto, ligado à razão. Enquanto a figura do feminino (também diretamente relacionada aos ovários e útero) é construída a partir do oposto daquilo que é considerado masculino, fazendo da figura da mulher, então, frágil, delicada e emotiva.

Quando atingida a maturidade, considerada pela tribo algo perto dos 16 anos, os jovens passam a frequentar espaços reservados para a técnicas de acasalamento. Esses jovens se reúnem de forma que as mulheres ficam nos espaços centrais desses locais chamados admissuram, enquanto os homens andam em volta delas. Os homens avaliam as mulheres, que, antes de comparecem a esses espaços colocam amuletos para trazer sorte, como dispositivos auriculares e anelares, além de pinturas corporais características. Dentro do admissuram os integrantes da tribo efetuam algo semelhante a uma dança do acasalamento, de modo que “fêmeas e machos” dancem para chamar a atenção uns dos outros. Quando uma mulher chama atenção de um homem, ele se aproxima e tenta colocar em prática alguns rituais, primeiro tocando a mulher com as mãos e depois com a boca. A mulher pode demonstrar aceitar ou não essa aproximação masculina através de sua simbologia corporal, porém, muitas vezes os homens se aproximam mesmo que a mulher faça sinais negativos, rejeitando-o.

Os Escogita se organizam a partir de uma lógica monogâmica, ou seja, apenas aceitando o relacionamento entre duas pessoas, quando mais duas, a própria tribo rejeita a união afetiva, de modo de não seja tratado como natural. Os casais tem que ser compostos por um representante de cada grupo antagônico, ou seja, um representante da figura masculina e um da feminina. Os casais em que há duas figuras masculinas ou duas femininas são também rejeitados pela comunidade e muitas vezes sacrificados, de modo que seus corpos sejam oferecidos como tributo ao demônio Copulabis.

Quando um casal de dois membros desses grupos antagônicos é composto, esses membros participam de uma cerimônia a fim de jurar sua lealdade um ao outro diante da eternidade. Essa cerimônia é importante dentro da comunidade para que os bens materiais acumulados pelo casal sejam repassados aos seus únicos filhos, de modo que uma justificativa material anteceda historicamente uma justificativa afetiva para a tal cerimônia, chamada de brak.

 

Bom, não sei se perceberam ou não ao longo do texto, mas eu inventei o Instituto de Pesquisa Mendacimano (mendacium: mentira em latim), assim como a tribo Escógita (excogita: criar, inventar em latim), que não é nada além de uma outra forma de demonstrar as impressões sobre nossa própria sociedade. Sociedade essa que encara a genitália como determinante do gênero e da sexualidade, oprimindo, assim, respectivamente trans e homossexuais.

Além disso, mesmo antes do bebê nascer lhe atribuem um gênero e compram roupas e brinquedos relacionados a eles, que são construídos de maneira dicotômica e estereotipada. Aos meninos são dados carrinhos de brinquedos (motoristas), assim como arminhas (exército) e bolas (esporte). Enquanto as meninas são doutrinadas a serem boas mães a partir de bonecas (réplicas de bebês humanos pouco mais novos que elas) e boas donas de casa, com suas casinhas e pias de brinquedo. Ninguém pergunta se a criança quer brincar de carrinho ou boneca, há apenas rosa e azul e um universo de estereótipos que orbitam em torno de cada uma dessas construções sociais.

O admissuram (do latim: acasalamento) seriam as baladas, um espaço no qual pode haver diversas formas de opressão que são, muitas vezes, naturalizadas e negligenciadas. E, por fim, o brak (em sérvio: casamento), é o próprio casamento, que na nossa sociedade só é admitido legalmente para uniões monogâmicas, e apenas recentemente o casamento civil entre homossexuais foi admitido, sendo que como instituição religiosa continua restrito aos heterossexuais.

Muitas coisas nos são ensinadas como naturais e intrínsecas ou instintivas para nossa espécie, mas seu caráter social é, muitas vezes, negligenciado. O machismo, o racismo, a heterocisnormatividade e a monogamia são parte de construções sociais que oprimem diversos setores da sociedade, subordinando-os a um padrão daquilo que é construído como masculino, branco, cisgênero e heterossexual.

Tanto são construções sociais, que em outras sociedades há outras diversas formas de organização dos laços afetivos que não essa patriarcal, como os ilhéus de Trobriand (foto) do nordeste de Nova Guiné estudados pelo antropólogo Malinowski, em que as relações familiares são matrilineares, de forma que há uma negação da paternidade fisiológica, uma vez que se acredita que a gravidez é fruto de uma interação divina, então as famílias se organizam a partir da mãe, e o pai tem apenas uma função social de apoio, sem que exista uma subordinação do feminino ao masculino dentro da família ou na sociedade.

A  tribo Tchambuli (agora Chambri) que vive na Papua-Nova Guiné, estudada pela antropóloga Margaret Mead, também é um dos tantos exemplos de sociedades não patriarcais em que as mulheres dominavam. Mead também desmistificou a ideia de que os homens são naturalmente mais agressivos e as mulheres naturalmente mais calmas estudando as comunidades de Arapesh e Mundugumor, além da Tchambuli, e conclui que entre os Arapesh todos eram pacíficos, sem haver essa relação entre agressividade e masculino ou pacifismo e feminino; entre os Mundugumor, pelo contrário, todos apresentavam um comportamento bélico, tanto homens quanto mulheres; e na tribo Tchambuli, os homens demoravam mais tempo se arrumando e enfeitando, enquanto as mulheres eram mais práticas, ideia contrária da passada hoje na nossa sociedade ocidental.

Portanto, todas essas relações fazem parte de uma construção social, de um conjunto de costumes, tradições e ideologias que compõem nossa sociedade ocidental, e, sendo construções sociais, é possível desconstruí-las. Ninguém é plenamente desconstruído de seus preconceitos e estereótipos e ninguém está isento de causar opressões, uma vez que é muito provável que sejamos privilegiados de alguma forma dentro da sociedade, seja por um recorte racial, de gênero, orientação sexual ou condições materiais. Mas essa deve ser uma luta constante, para sempre estarmos desconstruindo o preconceito dentro e fora de nós.

– Por Mari Haug

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