Resposta à falácia machista do risco da guerra

“Enquanto os homens arriscam suas vidas na guerra, as mulheres ficam em casa. Não seria isso um privilégio das mulheres?”

– Mascu

TW: VIOLÊNCIA SEXUAL

A História nos mostra que esse tipo de pensamento é, no mínimo, simplista. Desde a Antiguidade, há registro do estupro de guerra, escravização da população feminina e violência contra os civis (em grande parte mulheres e crianças) de modo geral, em tempos de atritos entre impérios, países, cidades, etc. Na Roma e na Grécia antigas, sociedades extremamente machistas, a escravização das esposas de guerreiros que pereciam em guerra era algo corriqueiro. Era uma maneira de fazer a manutenção dos exércitos menos custosa, visto que mulheres eram consideradas uma recompensa, um mero objeto. Um episódio famoso é o do “Rapto das Sabinas”, retratado em múltiplas ocasiões na arte ocidental de modo romantizado – seja como um ato de “bravura” dos abusadores, ou como “quando o amor prevaleceu sobre a guerra”, como na pintura de Jacques-Louis David (A Intervenção das Sabinas – 1799).

Obra de Jacques-Louis David onde a violência contra a mulher é romantizada e colocada como "voluntária" e como um ato de "bondade feminin
Obra de Jacques-Louis David onde a violência contra a mulher é romantizada e colocada como “voluntária” e como um ato de “bondade feminina”

A tática do estupro como instrumento de guerra serve para desmoralizar o adversário, humilhar os civis, fazer uma limpeza étnica (como no caso dos estupros em massa na Guerra da Bósnia) ou para suprir as “necessidades” dos soldados – seja com a escravidão sexual institucionalizada, com o espólio ou a liberação desse tipo de ato por parte de oficiais do exército. Para aqueles que acham que esse tipo de prática é distante e obsoleta, há exemplos de atrocidades cometidas em períodos próximos ao nosso. Tendo em vista que vivemos em uma cultura do estupro – em que a grande maioria das vítimas são mulheres e a maioria dos agressores, homens – não é difícil de se imaginar que as vítimas dessa estratégia são as mulheres e meninas.

Na Segunda Guerra Sino-Japonesa (1931 – 1945), ocorreu aquele que ficou conhecido como o Massacre de Nanking. O artigo de Thiago Ribeiro para o blog Causas Perdidas apresenta de modo conciso como eram as violências contra as civis chinesas e o motivo de tanta brutalidade:

Já as violências sexuais ocorriam principalmente na forma de estupros. Mulheres de todas as idades poderiam ser vítimas, possuíssem 8 ou 80 anos. O local de ocorrência não parecia importar. Condição física, idem. Meninas, senhoras, sacerdotisas (violar votos de celibato era um dos maiores prazeres), idosas, grávidas (recente, avançada, em pós-parto ou até em trabalho de parto). […]

Essa foto (AVISO: CONTEÚDO GRÁFICO) exemplifica uma prática que foi usual: a inserção de algum objeto, como taco de golfe ou garrafa de cerveja, nas partes íntimas da vítima de estupro, de forma a causar maiores danos internos. […]

Outra prática também corriqueira era a ordem para incesto. Obrigava-se que as mulheres tivessem relações com seus pais, irmãos e filhos. Caso estes se recusassem, poderiam ser mortos. A morte era algo muito relacionado a tais atos de violência sexual. Não apenas as mulheres costumavam ser mortas após os estupros – algo que se fazia como forma de impedir que delatassem o ocorrido -, mas também aqueles que porventura estivessem com elas (filhos pequenos, irmãos, amigos, primos, pais, etc.) e que tentassem impedir os estupros ou importunassem os soldados japoneses […]

Não é necessário muito esforço retórico para dizer que os estupros em Nanking podem ter sido uma “arma de guerra” contra os chineses. […]

Para os soldados que estão em um território distante de suas casas, o ponto fundamental dos estupros é o sexo. Sexo pelo sexo. Mas isso não significa que outros elementos não interferem nos atos. Na abordagem de Silva, os estupros de Nanking foram motivados pelas ideias de superioridade japonesa, fomentada pelas recentes vitórias militares, superioridade masculina – constituinte da cultura japonesa – e um sentimento de corporativismo militar por aqueles que se encontravam atuando fora de seu país, o que impediu denúncias de um soldado contra outro. Assim, nos estupros há uma afirmação de uma identidade de homem-conquistador sobre uma identidade de mulher-conquistada.”

Também no Japão, na Segunda Guerra Mundial, foram implementados os “Postos de Conforto”. Conforto para quem? É um termo no mínimo hipócrita, que esconde a realidade funesta desses estabelecimentos: eram prostíbulos com mulheres escravizadas criados com a intenção de dar prazer ao exército japonês, para que as novas áreas invadidas pelo Japão não sofressem com o estupro praticado pelos soldados e não se criasse tanto atrito. Mulheres filipinas, indonésias, tailandesas, vietnamitas e de outras colônias do Japão foram sistematicamente retiradas de seus lares e destinadas ao “alívio” de homens que, em tempos de conflito e desespero, abusavam dessas mulheres. Não há consenso sobre o número de mulheres escravizadas, mas estima-se um número entre 50 e 200 mil.

Até mesmo o Exército Vermelho da URSS praticou estupros em massa nas batalhas na Alemanha, quando as tropas nazistas já estavam muito enfraquecidas e não havia mais chance de vitória. Estima-se que mais de 2 milhões de mulheres tenham sido vítimas em cerca de dois meses. O fato de tal brutalidade ter sido cometida por um exército revolucionário nos mostra como o feminismo não é apenas uma causa secundária, mas sim um movimento que deveria ser considerado no mínimo vital para uma revolução que pretenda, de fato, romper com a ordem social vigente.

E não são só os “orientais” que cometem tais crimes de guerra. Países do ocidente também são responsáveis por inúmeras violações no decorrer da história. Seja na Guerra dos Trinta Anos (que terminou em 1648), quando cerca de metade da população feminina alemã foi violada, os cerca de 14 mil estupros cometidos por soldados americanos em campanhas na Segunda Guerra Mundial, os estupros em massa na Batalha do Monte Cassino (1944) cometidos pelo exército francês, os estupros cometidos por agentes pacificadores (!) da ONU, ou até mesmo os recentes casos do exército dos EUA no Iraque. A afirmação feita por um dos homens que participou de um estupro grupal seguido do assassinato de uma garota iraquiana (e de toda a sua família) de catorze anos (2006) foi categórica, e muito útil para entender o raciocínio que leva a esses incidentes:

“Eu não penso nos iraquianos como seres humanos.”

Abeer Qassim Hamza, a menina iraquiana que foi vítima de múltiplos soldados americanos aos 14 anos, com 6 na foto.
Abeer Qassim Hamza, a menina iraquiana que foi vítima de múltiplos soldados americanos aos 14 anos, com 6 na foto.

No jogo pelo poder, o corpo da mulher também está incluso como objeto de disputa. O adversário é desumanizado, não são consideradas suas motivações, interesse em não sofrer: aquele que vai ao combate vê apenas um inimigo a ser aniquilado, um grupo que o desagrada. Não são somente psicopatas monstruosos que cometem esses atos, mas sim pessoas comuns que se aproveitam de tempos de desespero – quando não há espaço para a ética, quando o ódio a uma etnia e a misoginia estão “liberados” e não há fiscalização dos acontecimentos.

E se, ainda assim não está claro que guerras são danosas tanto a homens como a mulheres, gostaria de lembrar que o número de mortes de civis (em maioria, mulheres e crianças) costuma ser numericamente mais alto se comparado ao número de baixas militares. Claro que há ocasiões em que o número de soldados mortos é maior, mas, ainda assim, é um número grande o suficiente para rebater o argumento inicial – de que as mulheres ficam em casa, numa vida supostamente calma, durante as guerras. Deixo aqui as baixas das duas grandes guerras mundiais como exemplo:

GUERRA BAIXAS CIVIS BAIXAS MILITARES
Primeira Guerra Mundial 7 milhões 10 milhões
Segunda Guerra Mundial 41 milhões 25 mihões

Geralmente, tal falácia machista é utilizada para deslegitimar a luta feminista, e vem acompanhada do “argumento” do alistamento militar obrigatório. Não é como se nossa luta para diminuir e erradicar a violência de gênero anulasse a possibilidade de homens se organizarem para lutar contra uma falha de um sistema criado por outros homens no passado. Reclamam que as feministas não lutam por isso, mas, ora, um protesto por uma causa masculina precisa ter no mínimo representatividade do gênero! Não vejo homens se mobilizando pela causa – e, pessoalmente, apoiaria a reivindicação para o fim da obrigatoriedade. E dizer que somos “contra” isso para continuarmos com nossos privilégios é desonesto, pois grande maioria das mulheres feministas apoia o fim do serviço militar obrigatório porque são contra as divisões de tarefas pelo gênero.

Também há aqueles que são a favor das mulheres lutarem pelo alistamento obrigatório para todos os gêneros – uma proposta, no mínimo, absurda. Uma instituição dominada por homens – aqueles que possuem armas, poder e recebem treinamento para terem força física e resistência – não poderia ser menos atraente para mulheres, cuja socialização não costuma ser compatível com a mentalidade militar. Além disso, o número de casos de violência sexual contra homens já é alto dentro das próprias forças armadas, e tende a aumentar muito contra as mulheres militares, que além de numericamente muito inferiores, são muito mais propensas a serem vítimas de estupro por conta do machismo estrutural em nossa sociedade. O documentário The Invisible War, dirigido por Kirby Dick, aborda a questão à partir dos casos ocorridos nos EUA – e na grande maioria destes, denunciar os abusos se tornava uma tarefa difícil por conta do silêncio e conivência dos internos e da estrutura altamente hierarquizada da marinha americana.

Capa do documentário The Invisible War (A Guerra Invisível)
Capa do documentário The Invisible War (A Guerra Invisível)

No fim, é sensato dizer que a realidade da guerra – fome, mortes em combates, massacres, ataques a civis, estupros, instabilidade política, etc. – atinge todos os gêneros, embora de modos distintos, e que essa distinção é causada pelos diferentes papéis de gênero que existem em nossa sociedade.

Por: Amanda

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